Malária: eu sobrevivi

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Mais uma vez começo um post pedindo perdão pela ausência nas últimas duas semanas. Foram quase 15 dias sem aparecer por cá – talvez mais, já nem lembro. Mas foi falta justificada essa a minha. É que, depois de quase seis meses morando em Moçambique, finalmente o inevitável para quase todo branco ocidental me aconteceu: peguei a tal da maldita malária.

Para quem não conversou comigo nesse meio tempo, deve estar se perguntando “como é malária?”. Bem, vou tentar descrever um pouco em palavras o que eu senti, e como a doença me abalou a um ponto de eu não ter forças nem para pensar em escrever post.

Existem quatro tipos de malária no mundo e, assim como a dengue, cada tipo tem sintomas diferentes e gravidades diferentes. A doença é causada por um bichinho que entra no seu sangue após ser picado por um mosquito – por isso, aqui em Moçambique, quando um brasileiro pega malária nos hospitais diz-se para não se preocupar porque é como a dengue deles aqui. Esse mosquito, que assim como o da dengue procria em água parada, pica (principalmente, mas não exclusivamente) durante o nascer e o pôr do Sol, e é só a fêmea que carrega o tal do bichinho, ou plasmodium.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a malária está presente em praticamente todos os países do hemisfério Sul, em quase todo o continente Africano e em boa parte da Ásia. Pois é, Brasil tem malária também, e, para meu espanto quando vi o mapa, em quase todo o território nacional. A diferença, como eu disse, é que existem tipo de malária; cada um causado por um parasita diferente.

Aqui em Moçambique, como a sorte é minha grande amiga, o tipo mais comum de malária  é justamente o tipo mais perigoso, conhecido como malária maligna e causada pelo plasmodium falciparum. Essa malária é uma que rapidamente sobe para o cérebro e pode causar comas e morte cerebral antes mesmo que a pessoa desenvolva sintomas mais graves.

Já deu para perceber como é que eu fiquei depois de descobrir que tinha isso, né? Segundo a OMS, foram mais de 665 mil mortes causadas pela doença só no ano de 2010 – dado mais recente -, e anualmente cerca de 220 milhões de pessoas são infectadas com o parasita. Os piores casos? Crianças, que, também segundo a OMS, têm uma taxa de mortalidade de uma a cada minuto só na África, e os de ocidentais que visitam ou trabalham na África. Isso porque, como todos nós sabemos lá da aula de Biologia, nosso corpo está em constante evolução. Então os povos africanos, aparentemente, têm resistência maior à malária. Aqui se alguém tem malária é como para nós quando alguém tem dengue. Ninguém se desespera, e é algo comum.

A minha sorte foi que eu diagnostiquei a doença extremamente cedo. Essa é a principal dica para quem vem fazer trabalho voluntário ou simplesmente passear por qualquer país endêmico. Sentiu qualquer coisa, vá ao hospital. Aqui teste de malária é feito milhões de vezes por dia e em qualquer posto de saúde, por mais precário que seja. A piada até que meus colegas daqui fizeram quando descobri foi “rapaz, fique feliz porque finalmente pegaste uma doença que nossos médicos não só sabem diagnosticar como sabem tratar”. E ah, existe outra coisa para ficar atento: nunca, absolutamente jamais faça apenas o teste rápido de malária. Principalmente se estiver tomando antimaláricos. Eles não vão acusar positivo. Aconteceu assim comigo. Sempre que se for testado deve pedir ao médico para fazer uma exame de sangue laboratorial também.

Bom, como ia dizendo, minha sorte foi ter diagnosticado cedo. A malária do tipo falciparum pode rapidamente matar. Os sintomas são os mesmos da dengue, que são os mesmos de uma gripe forte: dores de cabeça, vômitos, náuseas e, acima de tudo, febre. Não é à toa que, no Brasil, chamamos de Febre Terçã. O problema: eu não tive nada disso. A única coisa que senti foi tontura e uma dor de cabeça leve. Ainda assim, fui ao hospital, e por isso disse, para aqueles que pretendem vir para cá, que absolutamente qualquer coisa que sintam é o caso de ir ao posto de saúde.

Quando recebi o resultado do exame, vi que o parasita ainda estava naquilo que eles chamam de “primeira onda”. Estavam em “pouca quantidade” (algo como 300 mil parasitas por cada microlitro de sangue. Sim, isso é o pouco). Logo me deram um remédio extremamente forte – quatro comprimidos de uma só vez a cada 12h. Passados alguns dias, minha dor de cabeça piorou, mas a pior coisa mesmo é que perdi completamente o apetite e já não tinha forças para nada. Mal queria me levantar da cama. Mas sem febre, sem nada mais a não ser isso.

Dois dias depois que fui ao hospital, minha colega de quarto começou a queixar-se dos mesmos sintomas. “Estou me sentindo estranha”, disse. Perguntei se tinha febre, mas falou que não. Apenas tinha perdido o apetite e sentia-se estranha, sem saber especificar o que era. Corremos para o hospital e não deu outra. Não sei como funciona a dengue, mas a malária é assim: se você está infectado, tem que ficar isolado. O motivo? Se um mosquito te pica e pica outra pessoa perto de você, também passa a doença. É uma praga.

Enfim, depois de uma semana de remédios fortes, pouca comida e muita água, finalmente fiz um teste de controle e estou livre da malária. Confesso que ainda sinto uma dorzinha de cabeça de vez em quando, mas acho que é mais psicológico que qualquer coisa. Ainda assim, uma última dica para quem pretende vir para essas bandas: não seja idiota e deixe de tomar o antimalárico. Muita gente que conheço, muitos estrangeiros, não tomam o remédio porque dizem que tem efeitos colaterais e não sei mais o que. A pessoa vem pra África, toma água da torneira, come a comida daqui, passa mal e vai culpar o antimalárico. Eu e minha colega tivemos sorte, porque o nosso antimalárico evitou o pior. Muita gente não toma também porque “um amigo de um amigo meu” disse que não é bom tomar porque você deixa o tratamento da malária mais difícil depois. Mentira também. O antimalárico não só ajuda a prevenir como, quando você tem o parasita, ele evita que este se desenvolva dentro do seu sangue.

Por fim, outro conhecido meu pegou malária também pouco antes de nós. Ele nunca tomou o antimalárico. O rapaz quase morreu, teve de ser internado em um hospital moçambicano – o que, para quem acompanha meu blog, já sabe que eu não recomendo – e escapou por muito pouco do pior. Além do mais, a malária dele voltou diversas vezes – sim, porque o parasita pode ficar dormindo em seu fígado. Mas é isso. Vim, Vi e Venci. Passei por mais essa prova aqui.

Uma lição de tolerância em Moçambique

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Se tem uma coisa pela qual me interesso é observar diferenças nos padrões culturais entre as pessoas. Confesso: o principal motivo para eu ter escolhido vir para Moçambique é que queria entender um pouco mais a cultura de um país africano que também tinha sido colonizado por portugueses. Acho que, inocentemente, esperava que fôssemos ter mais semelhanças que diferenças. Engano (que eu já deveria ter esperado, é verdade). Mas bem, hoje eu vou falar de uma dessas diferenças culturais que muito me chama a atenção.

Peço um tempo para, antes de continuar a ler, observar a foto abaixo. Só olhe para ela e realmente diga o que pensou ao vê-la. Que tipo de comportamento acha que essas pessoas têm?

A foto foi tirada em Chókwè. É uma vila de pouco mais de 50 mil habitantes na província de Gaza. Literalmente no meio do nada.

Pois é. Achou estranho dois homens andarem de mãos dadas? Pois eu cá estou faz quatro meses e essa ainda é uma coisa que me desperta extrema curiosidade. Antes de mais nada: não, esses homens não são homossexuais. Pelo menos não que eu saiba. É bem verdade que eu tirei a foto de duas pessoas aleatórias na rua e que não tenho como afirmar isso com 100% de certeza, mas a continuação deste texto vai deixar mais claro porque eles provavelmente não são gays.

É incrível como nós atribuímos valores diferentes a atitudes e comportamentos que são iguais em todo o mundo. A primeira vez que eu vi essa cena – que é bem comum, diga-se de passagem -, eu fiquei absolutamente confuso. Questionei por que motivo dois homens caminhavam de mãos dadas na rua. Num primeiro momento cheguei mesmo a pensar que Moçambique, por incrível que pareça, fosse um desses países extremamente tolerantes que ninguém imaginaria. Mas então vi outros dois, mais dois, vários, dezenas, centenas de homens caminhando com as mãos dadas. Até o dia em que eu próprio estava conversando com um colega enquanto andávamos e ele segurou minha mão. Congelei.

É claro que eu tinha que ter a reação que tive. Para mim, aquilo parecia inapropriado. Não porque eu seja contra dois homens demonstrando qualquer tipo de afeto, mas porque se isso fosse no Brasil – ah, “o Brasil, que é o Brasil”, como eu costumo dizer -, nós muito provavelmente seríamos vítimas de algum crime de ódio ou pelo menos de preconceito. Não é preciso ir muito longe para lembrar do caso daquele pai e filho que, há uns dois anos ou mesmo ano passado – já não me recordo – caminhavam pela Paulista e, quando se abraçaram, foram espancados por um grupo de ignorantes e intolerantes que os confundiram com um casal gay. O cúmulo: um pai não poder mais demonstrar seu amor pelo filho porque ambos podem ser confundidos com um casal homossexual.

Como dizia antes, esse tipo de reação ignorante à qual estou acostumado me deixou bastante desconfortável. Enquanto caminhávamos e o meu colega conversava, eu tentava, em vão, separar nossas mãos. Coçava o nariz, tossia, fazia de tudo, mas no fim ele sempre pegava minha mão de volta. Enquanto isso, eu ia caminhando com o coração acelerado, olhando para todos os lados já à espera de alguém com uma lâmpada para dar na gente. Não aconteceu.

Voltando um pouco ao tema de direitos LGBT (ou sei lá como é a sigla oficial hoje, já que essas letras vão e vêm), Moçambique é considerado, na África, um dos países mais avançados no que diz respeito a direitos a homossexuais. Segundo a Associação Internacional de Gays e Lésbicas, é um dos três únicos países no continente a oferecer algum tipo de proteção legal contra a discriminação. Bom, mas também é só isso porque, no resto, as leis do país são bem esquivas e não dizem nada – nem para proteger, nem para desproteger. Mas isso é só para fazer um parênteses porque, como eu dizia antes, isso tudo nada tem a ver com direitos GBTLSWXJK. Sabe onde é que Moçambique está mesmo muito à frente de todos nós, ocidentais? Não é nesse quesito aí; é no quesito da liberdade e da tolerância a demonstrações de afeto entre dois homens.

Já devem estar curiosos para saber, afinal, porque os homens aqui caminham de mãos dadas. O motivo, que descobri somente esta semana, é tão simples – e não poderia ser mais bonito -: quando dois amigos se reencontram depois de um tempo, ou quando simplesmente estavam com saudade um do outro, eles caminham de mãos dadas. É isso. Não tem nada de gay, não tem nada de mais. É a simples demonstração física de que aquelas duas pessoas se gostam e sentiam falta uma da outra. E não se gostam de um jeito sexual; eles se amam como amigos e é isso. E aqui não há nada errado em demonstrar esse afeto.

Novamente fiz um esforço de tentar imaginar isso no Brasil, em São Paulo, nossa cidade mais desenvolvida, o “primeiro-mundo” dentro do país em desenvolvimento. Eu nunca poderia sequer andar muito perto de um amigo meu. Caminhar com meu pai, mesmo que para ir ao cinema – algo que adoramos fazer juntos -, e abraçá-lo ou algo do tipo é uma coisa que nem imagino mais fazer. Tudo, hoje, é motivo para odiar alguém, para bater em alguém, para despejar todas as suas frustrações consigo em uma pessoa inocente que nada tem a ver com esses seus problemas, suas frustrações.

Esses “machões” que andam por aí no Brasil se proclamando neo-nazistas – o que por si só já é uma ironia, porque só pelo fato de serem brasileiros, misturados com latinos, eles já não seriam considerados arianos – têm muito o que aprender com o povo moçambicano. Aprender que ao invés de sustentar essa pose de macho alfa eles talvez pudessem demonstrar que gostam de outros homens, que são amigos de outros homens, e que não há nada errado em amar outra pessoa do mesmo sexo – afinal, já não diz Rita Lee que “amor sem sexo é amizade”?.

Aliás, não só esse grupo, mas todo o povo brasileiro que, ao ver dois homens ou duas mulheres trocando carinhos, faz cara de nojo ou pensa que aquilo é errado. Se todos nós pudéssemos simplesmente aprender que não há nada de errado em gostar de alguém… Enquanto isso não acontece, palmas para Moçambique e por sua cultura. Parabéns por, aqui, dois homens héteros poderem demonstrar que se amam de verdade. E poderem andar de mãos dadas sem que isso seja um grande “ooohh”. Há muito que este país pode ensinar a nós.

A questão da criminalidade

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E eu que não acreditava que alguém realmente acompanhasse meu blogue fui surpreendido essas duas semanas com uma chuva de mensagens no meu facebook de amigos perguntando aonde é que estava post novo. Primeiro de tudo, preciso realmente me desculpar então. E dizer que a culpa não foi totalmente minha. Acontece que há duas semanas eu estive em Maputo para um evento do AFS (a ONG para a qual voluntario desde 2007 no Brasil e que tem aqui também um escritório) e, infelizmente, fui roubado. Uns tanzanianos invadiram o hotel em que estávamos e nos levaram tudo, então fiquei sem acesso mesmo à internet porque não tinha nem computador. Além do mais, quando usava a máquina de algum colega, preciso confessar que já não sentia ânimo para escrever. Mas bem, alguma coisa disso tinha que sair, e por que não inspiração para um post?

É claro que, como ainda estou um tanto quanto indignado, vou ser quase que obrigado a falar sobre criminalidade aqui em Moçambique. É um tema para o qual eu pouco tinha prestado atenção antes, mas que, com um pouco de pesquisa, consegui ver que é preocupante. Na verdade, todo mundo sempre me disse aqui que Maputo, em especial, era cidade de bandidos, que lá não valia a pena. Beira, então, capital de outra província mais ao norte, é tida como um grande gueto.

Eis que fui a Maputo fazer alguns trabalhos. Além do roubo ao hotel em que estava, já mencionado, tentaram me assaltar outras 2 vezes. Duas colegas colombianas que estavam comigo também sofreram tentativas de furto. Tudo isso em dez dias. Opa, então as coisas não estavam tão bem assim quanto eu imaginava.

Um relatório anual apresentado há poucos meses pela Procuradoria-Geral da República de Moçambique aponta a alta na criminalidade no país como um dos principais problemas a serem enfrentados. O próprio presidente do país, Armando Guebuza, já havia falado sobre o tema no ano passado, quando afirmou que o grande problema da capital, a cidade de Maputo, era a alta taxa de crimes. O motivo possível para tudo isso? O próprio desenvolvimento do país que, assim como no Brasil, enriquece uma pequena parcela da população e mantém na pobreza a maioria do povo.

Em entrevista ao diário O País, Guebuza afirmou que o governo tenta contornar os problemas. “Os principais desafios que ainda persistem na cidade de Maputo são os índices de criminalidade, mas como todos sabemos há muitas ações que o governo está a levar a cabo para a sua minimização”, disse. A verdade é que a diferença entre as classes sociais, que só tem aumentado no país, tende a piorar, ano após ano, as taxas de criminalidade. E não há nada que o governo esteja fazendo para contornar essa questão.

Um dos casos mais absurdos que vem acontecendo é o de sequestro de asiáticos. Não se sabe muito bem o motivo, mas desde o final de 2011, e ainda hoje, Maputo sofre com uma onda de sequestros que só são direcionados a asiáticos. A única coisa que o governo diz sobre o tema é que “reconhecemos nossas fragilidades”. Bom, reconhecê-las é bom, mas e quanto a tomar atitudes para melhoras as coisas?

Um leitor do RFI em português postou o seguinte comentário na matéria que fala sobre o relatório da PGR: “o informe do procurador geral tem sido repetitivo; não tras nada de novo. No que toca a criminalidade, a policia não está capacitada no modo de fazer baixar os índices de criminalidade.
O PGR não traz as possíveis soluções desses problemas”.

Uma das grandes reclamações de todos os moçambicanos que conheço é de que a polícia não faz nada. A força, que trabalha ganhando salários absurdamente baixos, funciona na base da corrupção. Quem tem dinheiro consegue o que quer; quem não tem sofre. Parece um pouco a situação do Brasil, mas é milhões de vezes pior. Se um filho de um político for assaltado, logo encontram-se os culpados. Se um fulano é roubado, aquele caso entra para um arquivo e nunca é feito nada. Isso gera uma falta de confiança na polícia tão grande que as pessoas preferem nem mesmo envolver a força em casos de roubo – tentam, por si próprios, encontrar uma solução, o que, claro, pode trazer consequências.

Moçambique, hoje, ainda não é um país perigoso. Longe disso. Mas se as coisas continuarem a caminhar na direção em que vão hoje, em pouco tempo vejo isso aqui como uma terra de ninguém. A solução? Se me perguntam, já disse: investir em maior igualdade social, mais até do que no próprio crescimento desenfreado do país.

Um país onde se morre de diarreia

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“A Diarreia é a segunda maior causa de mortes em crianças abaixo dos cinco anos de idade. É uma doença que não só pode ser prevenida, como é curável”. Essa citação foi tirada do site da Organização Mundial da Saúde (OMS), órgão da Organização das Nações Unidas. Me espanta pensar que diarreia é algo que possa matar. Pense bem, e seja sincero: você já tinha pensado que diarreia mata? Quando nós pensamos em diarreia, tratamos como uma doença trivial, algo que temos depois de comer comida ruim ou coisa assim. Ninguém pensa que diarreia mata. No máximo vai-se ao hospital tomar soro, não é?

Em Moçambique, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), essa doença aparentemente trivial é uma das principais causas de morte, acabando, diariamente, com a vida de centenas de crianças. Hospitais em todo o país estão lotados de jovens com sintomas da doença; pequenas pessoas que, por causa das péssimas condições de saneamento, acabam internadas com algo que poderia ter sido evitado.

Em todo o mundo, segundo a OMS, cerca de dois milhões de novos casos de diarreia são registrados. Desses, 1.5 milhões resultam em óbitos. A próxima vez que tiver uma diarreia, esse é um dado para se analisar. Mas o que então acontece que as pessoas nos países mais desenvolvidos não morrem disso? Ou melhor: o que é que mata as pessoas aqui em Moçambique? A resposta é da própria UNICEF.

“Cento e setenta e oito crianças de 1.000 nascidos morrem antes de atingir os 5 anos de idade devido à malária, diarreia, infecções respiratórias agudas (ARI), e doenças preveníveis por vacinas.”

Crianças de uma comunidade isolada do Chókwè. Elas brincam na areia, no meio da sujeira.

Os dados mais recentes que pude achar, de 2006, dizem que apenas 36,6% da população tem acesso a fontes de água segura. No entanto, aqui, não é nada incomum beber água da torneira. Na própria casa onde vivo, essa é a regra. Isso me causou estranheza logo de início, porque, claro, pensei “se nem no Brasil eu tomo água da torneira, imagina aqui”. Até que um dia, à noite, com sede e preguiça de ir buscar um copo d’água tratada, resolvi me aventurar. O resultado? Passei os próximos quatro dias no banheiro, e fechei a saga com uma ida ao hospital para tomar o velho e conhecido soro na veia.

Me considero uma pessoa de sorte. Para mim, até aquele dia, diarreia era “só uma diarreia”. Nunca considerei uma doença realmente perigosa. Mas, no hospital, percebi que a história era outra. As filas, imensas, são povoadas por mães carregando seus filhos a chorar. Tudo muito sujo, sem condições nenhuma. E as histórias repetem-se: este bebê aqui está com diarreia, o outro está desidratado, e assim vai.

O que mais preocupa é que, além das condições serem extremamente desfavoráveis, há uma falta de conhecimento generalizada que piora tudo. “Muitas crianças menores morrem em casa porque seus pais não reconhecem os sintomas de doenças graves ou não têm nenhum acesso fácil aos serviços médicos”, diz a UNICEF Moçambique em um documento em que analisa a situação da doença no país africano.

Andando pelas comunidades do Chókwè, pude ver isso de perto. Quase em todo lugar que entro, os bebês estão sempre na areia suja, eles próprios imundos. Os ouvidos, pretos de tanta sujeira, geralmente são cheios de feridas. Muitos têm cortes pelo corpo, e as condições sanitárias em casa são terríveis. Mas não achem que eu culpo as mães ou ninguém. Pelo contrário, eu sei, e muito bem, que eles não têm outro jeito para viver, e essa é a pior constatação. A água que esses bebês tomam todos os dias vem de poços pouco confiáveis, quando não é retirada simplesmente da torneira, sem que seja nem esquentada. E aí, quando a criança aparece com alguma doença, ou já é tarde demais ou os pais se recusam a procurar tratamento.

Certa vez, visitando uma casa, uma senhora me explicou que seus filhos não se sentiam bem. “A menina tem problema no ouvido, não escuta. E aquele ali”, disse-me, apontando um garoto que não deveria ter mais de sete anos, “aquele ali está fraco”. Está fraco. Foi isso que ela disse. Não estava doente, não estava passando mal. Para ela, era só uma questão de fraqueza.

É claro que não sei, e nunca chegarei provavelmente a saber, se aquele menino tinha diarreia ou não. Mas de todo jeito ele serve para ilustrar o fato de que aqui as pessoas tratam essas doenças com descaso. Aquele menino pode ter morrido – não sei, ainda não revisitei a senhora – por uma doença simples. Pode estar vivo, mas ter passado por maus bocados. Mas aquilo ali ficou na minha mente e, desde então, tenho pensado em quão grave a doença mais simples pode ser. Afinal, aqui as pessoas morrem sim de diarreia.

Safári de todo o dia

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Se você está na África e não faz um safári, alguma coisa muito errada deve estar acontecendo. É uma das atividades mais divertidas, diferentes e bonitas que já tive a oportunidade de fazer. Ficar no meio do mato, ou na savana africana, com milhões de animais ao seu redor, é impagável. É tudo muito lindo, muito perfeito, e você acha que está em outro mundo. Até que você lembra que existe gente que vive aquilo ali todos os dias, e se sente um pouco enciumado e até mesmo chateado consigo.

Uma dessas tais pessoas é Ludovico Moussa, um moçambicano simpaticíssimo que vive na vila de Massingir, às portas do Parque Transfronteiriço do Grande Limpopo, uma enorme reserva natural africana que abrange África do Sul, Moçambique e Zimbábue. Conheci-o porque é cunhado de um colega, e coincidentemente estava de folga do trabalho durante a última semana, quando estive no tal Parque do Limpopo. Moussa não trabalha lá, porém; ele é fiscal ambiental de outra reserva (sul-africana), mas esteve conosco o tempo todo.

“Sou apaixonado por essa coisa aí, esses animais. Desde criança ando no meio do mato, estou a caminhar pelos lugares mais imprevisíveis de Moçambique”, conta. Vico, como é conhecido, é natural da província de Nampula, no centro do país. Há dois anos mudou-se para Gaza a convite da administração desse outro parque. Diz que, de todas as províncias moçambicanas, só não conhece uma. “Vim aqui a trabalhar era 2010. Mas quase não fico em casa, passo coisa de 20, 25 dias no mato e volto aqui só para descansar um pouco.”

Nosso colega feliz e contente por poder nos mostrar aquilo que de mais bonito existe em seu país.

É claro que eu e meus amigos, todos estrangeiros, estávamos curiosíssimos sobre o trabalho dele, e como o conhecemos ainda na primeira noite, quando ainda estávamos achando que íamos montar em um elefante ou coisa assim, ele acabou ganhando todos os holofotes. “Xiii, elefante? É normal quando estou aí no mato, a dormir, entrar tromba de elefante na barraca à noite”. Entrar tromba de elefante? “É, os animais ficam curiosos, veem aquela barraca ali, a comida, não sei, então teve dias já que estava a dormir e de repente acordei com uma tromba em cima de mim, como que procurando algo”.

Acho que em pouco mais de cinco minutos estávamos todos já sentados no chão ao redor de Vico escutando suas histórias “do mato”, como gosta de dizer. O trabalho de fiscal nessas reservas naturais, principalmente aqui na África, é bastante perigoso pelo que ele conta, sem muitos floreios. Dá para imaginar que eles não têm muita segurança. “Uma vez aí um colega foi picado por uma cobra, acho que era isso aí de mamba, e ali mesmo morreu”, diz. Rádio, kit de primeiros socorros, coisas assim o governo, claro, diz que não tem dinheiro para pagar. Então esses fiscais acabam se metendo no meio das florestas sem muito equipamento. “O que carrego sempre comigo é só esta arma aqui”, disse, indo buscar uma escopeta. “Tenho algumas balas e se animal vem atiro. Mas evitamos matar animal, porque depois complica.”

Ludovico nunca precisou matar um leão ou coisa assim, embora já tenha convivido com muitos. Ele não sabe exatamente o preço, mas diz que a multa para quem mata um animal selvagem – principalmente os grande 5, como eles chamam, que são leões, elefantes, rinocerontes, búfalos e leopardos – chega a coisa de dez, vinte mil dólares. “Esse preço aí, em metical… Ih! Se matar um animal é mais fácil usar a outra bala para se matar também, porque isso aí nem em uma vida inteira consegue pagar de volta”, conta. Em resumo, a única segurança que esses fiscais têm, que é a arma, não pode ser usada. No fim das contas, ele diz que o que acontece de verdade é que muitos fiscais matam os bichos e se fazem de desentendidos depois, ou dão um jeito com o corpo.

“Mas em tudo é um trabalho muito bom. Epa, eu gosto muito de ficar no mato, de ter contato com os animais. Parece até que eles já me conhecem”, diz. Ele foi criado em família de fiscais: seu pai trabalhava em outro parque nacional, e seu avô era de uma comunidade em uma vila que ficava dentro da área de uma reserva, então a presença de leões e leopardos não é algo que o assuste. “Tem só que saber lidar com esses aí. Já acalmei muito leão”. Verdade ou não, ele parece mesmo bem entendido.

Dois dias depois desse nosso primeiro encontro, convidamos Vico para nos acompanhar em nosso safári no Parque do Limpopo. Parecia uma criança quando recebeu o convite, ficou todo animado. Lá fomos atrás de um fiscal oficial do parque – não dá para fazer o safári sem o fiscal da própria reserva – e, como eram conhecidos, nosso fiscal entregou sua arma a Vico, que sentiu-se importante. “Epa, vamos lá! Agora se vem leão já estão seguros cá comigo”, disse.

A paixão do rapaz pelo que faz me impressionou. Nunca imaginei que esses fiscais realmente pudessem gostar tanto do trabalho, ainda mais quando as condições são tão desfavoráveis. “Eh, rapaz, passo dias sem água, às vezes nem como direito, mas sabes o que é estar a descansar durante o entardecer e ter um elefante, grande mesmo, bem ao seu lado, bebendo água de um rio?” É. Não sei mesmo. Elefante, se vi, foi dentro de uma jaula em algum zoológico.

No fim das contas, o pobre Ludovico não nos pôde proteger de nada. Nosso safári foi um tanto quanto triste porque não conseguimos ver um animal sequer – mas vimos muito cocô de elefante, o que quer dizer que eles realmente ali viviam, eu acho. Ainda assim valeu a experiência. A cada cinco metros, nosso amigo parava, mostrava a pegada desse ou daquele animal, apontava um pássaro raro, contava um novo caso de suas aventuras por aí. No fim, meio triste, disse que safári era imprevisível assim mesmo. “Eu vejo muito animal porque vivo lá no mato, mas assim aqui é mais difícil porque isto é onde eles vivem, não é? Então estão a andar por aí. Mas não há problema. Hão de voltar aqui e eu vos levo lá no meu parque para ver leões!”

Uma outra vez, talvez. Para mim, valeu a pena só pelo conhecimento todo que ele tinha. (E pelas inúmera vezes em que parava, atencioso, e fazia sinais militares para nós abaixarmos, fazermos silêncio, ou acenava com a mão para seguirmos a caminhada). E sim, deu um pouco de inveja. Queria também poder estar tomando meu chá no entardecer com um elefante ao meu lado. Ao invés de fazer safári, viver safári. Tem gente que é feliz e sabe disso.

E se ter esse cenário todo dia da sua vida não é felicidade, então eu não sei o que é.

O que você quer ser quando crescer?

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Quando eu era criança, quis ser piloto de avião, astronauta, até psicólogo pensei em ser. Acabei jornalista, um de meus muitos sonhos – sim, nunca tive dúvida de que o queria ser. É muito comum perguntarmos a crianças o que elas pretendem ser quando crescidas, porque sabemos que vamos ouvir as respostas mais absurdas possíveis, o que, vamos combinar, é super fofo. É… É mais ou menos assim.

Já há algumas semanas tenho trabalhado em parceria com alguns ativistas locais aqui em Gaza na implementação de grupos de crianças órfãs e vulneráveis. A epidemia do HIV, na província onde vivo, já matou milhares de pessoas, e não é nada incomum encontrar, nas comunidades, casas inteiras em que não viva um adulto – lugares onde o “líder” da família é um garoto de seus dez anos de idade.

Isso tudo me fez pensar no que é infância para essas crianças, e onde ficam os sonhos delas. Inquietação que atinge minha colega de trabalho aqui em Moçambique, a colombiana Cindy Gonzalez. Em nossos grupos de crianças temos tentado não ensinar esses garotos e garotas apenas alguma habilidade manual para a vida, mas também tentamos dar-lhes espaço para serem crianças. E aí, na semana passada, resolvi lançar a pergunta que para mim parecia algo tão natural. O que vocês sonham ser quando crescerem?

“Quero ser cobrador de chapa”, teria respondido um rapazinho de seus nove anos à colega Cindy, que trabalhava em um grupo diferente do meu. “Vou vender legumes no mercado”, disse-me uma menininha já um pouco mais velha. A realidade me atingiu: essas crianças não estão preocupadas em ser astronautas; elas querem sobreviver, e as primeiras coisas que pensam são aquelas profissões que dão retorno financeiro imediato.

As crianças do grupo que eu acompanho aqui numa comunidade afastada do Chókwè.

Chapas, vocês podem ler aqui, são o transporte de massa de Moçambique – e de boa parte da África. Mas o trabalho de cobrador é um dos menos cômodos do mundo. Ele geralmente vai em pé, todo torto, por caminhos sinuosos e esburacados, sem conforto nenhum. É ele quem ouve todas as reclamações das pessoas, e ele quem coloca sua vida constantemente em risco – se o motorista decide levar mais gente do que cabe fisicamente no chapa, o cobrador vai pra fora do carro, segurando-se na porta. E sim, ainda assim esse era o sonho daquele garoto.

“Essas aí são crianças que não têm nem em quem espelhar-se, não têm heróis, não têm pai nem mãe. Não é que não tenham ambições maiores, mas agora estão preocupadas em como continuar a viver e garantir sua casa”, disse a ativista Zaida Sitoe, com quem estava trabalhando. Na verdade não é nem que aquelas crianças não tivessem ambições maiores. Muitas queriam ser médicas, engenheiras, e a maior parte sonhava em se tornar professores. Mas eu senti a falta dos astronautas e pilotos porque era com isso que estava acostumado.

Me peguei pensando também que nós, no Brasil, temos uma relação de amor e ódio com nossos professores da escola. Não me lembro de muitos coleguinhas querendo ser professores. “Imagines que os professores da escola são a figura mais próxima de um pai que esses miúdos têm”, contou Zaida.

Fiquei com isso na cabeça. Ainda assim, no fim do dia tive uma resposta de uma garotinha de seus oito, nove anos, que me fez rir. “Vou crescer e ir com mulungo lá pra Brasil! Vais me levar pra ser atriz da novela!”. Pelo menos isso parece que não muda daí pra cá.

A futura atriz da Globo.

Quando a corrupção é institucionalizada de verdade

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Corrupção. Eu nunca pensei que fosse mesmo me surpreender com isso vindo do Brasil. Nós temos a mania de achar que vivemos no país mais corrupto do mundo, que não temos jeito. E aí vem-se para a África. Li recentemente em um livro sobre estudos culturais, chamado Software of The Mind, de Geert Hofstede, que a corrupção está enraizada na cultura de um povo também, e que ela é mais ou menos aceita dependendo de onde acontece, e que às vezes é uma questão de sobrevivência. Em Moçambique, a corrupção existe em todo lugar e para tudo. Aqui, quem tem contatos realmente se dá bem na vida. Quem não tem…

A questão da corrupção aqui está enraizada nos costumes locais. Com um pouco de dinheiro e influência, tudo muda. Desde o atendimento no hospital até, claro, os escândalos do governo. Mas não precisamos ir muito longe. Esta semana precisei ir a Maputo. Aqui é muito comum que tenham blitze da polícia a cada 20 km mais ou menos. Inocente, bastante ingênuo até, eu sempre achei que fossem algo bom, que pelo menos a polícia moçambicana estivesse fazendo seu trabalho. O mais curioso é que os tais chapas, de que já falei neste post aqui, são parados em todas elas, mas eu nunca tinha entendido o motivo. Até ontem.

A história é sempre a mesma: os policiais param os carros grandes e os chapas apenas, pedem a documentação e liberam a viagem. Só que, aparentemente, viajar com 30 pessoas em um carro em que cabem 15 não é legal – embora eu não soubesse, já que é a realidade. “Acontece que esses nossos policiais aqui estão mal. Os motoristas de chapa não são multados porque paga-se uma propina ali”, conta um amigo meu, que vive em Maputo.

Realmente eu nunca tinha reparado nisso, mas tive a oportunidade de sentar-me no banco do passageiro na viagem de volta a Chókwè, e aí reparei que, em todas as sete blitze que fomos parados, o motorista entregava a habilitação junto com uma nota de cem meticais enrolada meio escondida. O policial pegava a carteira de motorista com a nota e, muito rapidamente, a colocava no bolso. Em certo momento resolvi perguntar ao próprio motorista por que fazia aquilo “Epa, mas até minha habilitação não está mais válida. Se não der dinheiro aos policiais, mesmo que esteja tudo certo, dão jeito de te suspender a documentação”, disse. “Esses aí não valem. Mesmo com tudo certo eles querem é o dinheiro.”

E assim vão os chapas, dia após dia. São parados mais de cinco vezes, geralmente entre esse número e dez, dependendo da distância, e a cada parada pagam cem a um dos policiais corruptos. Um outro colega, que estava tentando entrar para a academia de polícia, disse que isso se faz porque o salário é muito baixo. Questionei se ele faria. “Não, não, eu vou ser honesto”, respondeu. Mas eu sei que ele falou aquilo só porque, pouco antes, eu tinha dito que era uma atitude revoltante. E o pior é que ninguém faz nada para mudar.

“As pessoas têm medo da polícia. Ninguém há de dizer nada para mudar porque isso aí não muda não. Achas que nossos políticos não sabem que isso acontece?”, disse o colega de Maputo.

A corrupção nesse meio dos chapeiros é grande, e não diz respeito só às propinas pagas aos policiais nas estradas. Aqui há muitos carros que vão à África do Sul por um preço barato. Animado, planejei um final para semana ir ao país vizinho, ao que uma moça que trabalha comigo disse que não valeria a pena. “Ih, mas esses chapas aí da África do Sul são muito confusos. Hão de sair daqui do Chókwè de manhã, mas vais chegar na África do Sul só daqui dois dias. Esses aí levam aquelas pessoas que não têm passaporte ou identificação, então quando chegam na fronteira têm que esperar até anoitecer para poder passar a pé em um esquema que têm lá com os da fronteira”, disse. Dentro do preço que se paga pela viagem, já está incluída a passagem ilegal.

A corrupção afeta também outras áreas, como a saúde. Já falei em alguns posts que o sistema aqui é bem precário. Pois bem, quando alguém está doente, o costume é ligar para algum médico conhecido para que atenda a pessoa antes. Certo dia, já até ouvi uma colega pedir ao chefe que ligasse para um conhecido simplesmente porque ela não queria esperar na fila. Ela não tinha nada, apenas tinha caído e machucado a perna, mas não era nada grave.

Até mesmo o comércio de automóveis, aqui, é regido pela corrupção. Fiquei impressionado ao descobrir que, aqui, compra-se carros excelentes, importados, por cerca de R$ 10.000. Mercedes, Audis, carros que no Brasil custam cem mil reais, aqui saem barato. O preço explica-se porque são roubados. “Esses aí vêm da África do Sul. Chókwè, descobriu-se há algum tempo, é o principal destino dos carros roubados da África do Sul”, contou-me uma das moças que trabalham comigo.

De fato, aqui há mais placas sul-africanas que moçambicanas. O que se faz, segundo ela, é que esses carros chegam aqui e, por alguns meticais a mais, paga-se a polícia – mais uma vez ela – para falsificar os documentos. Depois disso, os documentos continuam falsos, mas se for parado por alguma blitze, basta realizar o processo da propina já descrito. “Há quem venha de outras províncias, mesmo de Maputo para comprar carros aqui no Chókwè. Somos famosos por isso”, disse-me a colega. “E aí o que esses gajos fazem é que garantem o transporte do teu carro até onde morares. Te dizem mesmo que vão levar até Maputo, por exemplo, e aí pagas um preço e eles conseguem evitar os polícias.”

Conviver com a corrupção, aqui, é tarefa difícil. É revoltante, dá vontade de fazer alguma coisa, mas não dá para mudar. Principalmente sendo uma pessoa só. E principalmente sendo de fora. O problema está em todos os lados – da compra de comida à política, como falei -, mas só dá para nós observarmos e tentarmos ensinar às pessoas que é errado. A grande questão, aqui, é que as pessoas não acham errado. Acham que é normal, natural. E assim continuam e dão legitimidade a um sistema que, no fim, faz mais mal à sociedade que a qualquer outra coisa.

PS: pode parecer besteira, mas resolvi não nomear ninguém porque é um assunto delicado. Tá bom que meu blog não deve ser acompanhado pelo governo moçambicanos, mas vai que, né? Além do mais, tentei fotografar o tal do motorista do chapa citado dando a propina e o policial percebeu e foi uma confusão…